Fundep destina investimentos de R$ 37 milhões em projetos de Segurança Veicular no 1º Ciclo do Mover

Categoria: Linha V

O impacto da segurança veicular na  indústria automotiva no Brasil pode ser mensurado pelos dados do Guia de Segurança nas Rodovias Brasileiras – 2025, da Confederação Nacional do Transporte (CNT). Entre novembro de 2023 e outubro de 2024, foi registrada uma média de 16 mortes por dia somente em rodovias federais brasileiras. Foram 72.571 acidentes, causando um total de 6.005 óbitos e 83.950 pessoas feridas

Para ajudar a mudar esse cenário, o Eixo Segurança Veicular da Linha V – Biocombustível, Segurança e Propulsão Veicular, do programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), teve R$ 37 milhões investidos em projetos durante o 1º ciclo do Programa Prioritário (2019-2024). A Linha V é coordenada pela Fundação de Apoio à UFMG (Fundep).

Em cinco anos, o eixo fomentou 20 projetos voltados para a segurança veicular, com contrapartidas de R$ 18 milhões e o envolvimento de 20 Institutos de Ciência e Tecnologias (ICTs) e de 24 empresas. O principal objetivo é aumentar a segurança e a eficiência no transporte via desenvolvimento de tecnologias que protejam motoristas e ocupantes de diversos tipos de veículos, como automóveis, comerciais leves, ônibus, caminhões, articulados com reboques e semirreboques, motocicletas, até tratores e máquinas agrícolas.

As tecnologias avaliadas também visam melhorar subsistemas e componentes importantes já existentes (pneus, suspensão, freios, entre outros), que podem ser aperfeiçoados para atuar na estabilidade tanto de veículos convencionais quanto de veículos híbridos e elétricos. 

Ludmila Corrêa, coordenadora técnica da Linha V
Ludmila Corrêa, coordenadora técnica da Linha V

Atualmente, as maiores empresas automobilísticas e de tecnologia têm investido em sistemas capazes de interagir com motoristas, passageiros e pedestres para promover uma mobilidade segura e eficiente em centros urbanos e em rodovias. Entre os objetivos específicos dos estudos ligados à Linha V, estão: monitoramento, comunicação, big data, conectividade, mobilidade e análise quantitativa de segurança. 

“Estamos buscando tecnologias que reduzam custos e tornem as inovações acessíveis ao dia a dia das pessoas, além de contribuírem para a modernização do setor. Os projetos podem ajudar a impulsionar a competitividade do Brasil no cenário internacional e contribuir para a renovação da frota”, explica a coordenadora técnica da Linha V e professora da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp (FEM/Unicamp), Ludmila Corrêa de Alkmin e Silva.

Para o 2º ciclo do Eixo de Segurança Veicular, (2024-2029), estão mantidos objetivos do ciclo inicial, como contribuir para a indústria automotiva com o desenvolvimento de subsistemas veiculares capazes de auxiliar o motorista e assumir a condução do veículo em corredores dedicados, zonas urbanas específicas (geo-fenced) e operações agrícolas. Além disso, serão desenvolvidos e aperfeiçoados dispositivos de segurança ativa e passiva capazes de reduzir fatalidades e lesões no setor de transporte. Por fim, deve-se criar métodos e ferramentas para avaliação e qualificação da segurança e confiabilidade de sistemas eletrônicos de apoio ao motorista e de direção autônoma para os diversos níveis de autonomia.

Uma preocupação apontada pela coordenadora técnica da Linha V se refere ao desenvolvimento de veículos inteligentes e a como a conectividade pode impactar a segurança. “Se o motor elétrico vai gerar um magnetismo, isso pode atrapalhar os sinais e sensores que se comunicam entre si,” diz Ludmila Silva. Para concluir, ela destaca que o Eixo de Segurança Veicular está em fase de amadurecimento, mas já apresenta um grande potencial de bons resultados, demandando a continuidade dos investimentos e de rede colaborativa de pesquisadores.

Projeto SegurAuto

Para desenvolver tecnologias que contribuam para a diminuição dos números alarmantes de acidentes e de mortes no trânsito brasileiro, o Projeto e Desenvolvimento Integrado de Funções de Segurança Assistida ao Condutor e Ambiente para Veículos Autônomos (SegurAuto), em andamento no Eixo de Segurança Veicular da Linha V, tem o objetivo de oferecer funções de Sistema Avançados de Assistência ao Condutor (ADAS) combinadas com comunicação veicular (V2X), considerando as especificidades da infraestrutura e das condições de tráfego no Brasil. A escassez de estudos que levam em conta esses elementos, citada no projeto, atribui ainda mais relevância à iniciativa.

A colaboração com universidades e empresas tem sido fundamental para o desenvolvimento do SegurAuto. Participam do projeto a Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo (Fatec), o Instituto de Ciências Matemáticas e Computação do campus São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O aporte da Fundep é de R$ 3,7 milhões, com contrapartidas de R$ 5,3 milhões.

De acordo com Armando Laganá, professor na Fatec, e coordenador associado do projeto, “entre as diversas funcionalidades projetadas, se destaca o Adaptive Cruise Control (ACC), que permite que o veículo acompanhe o da frente, mantendo uma distância segura. Essa tecnologia não apenas aumenta a conveniência da direção, mas também se propõe a reduzir o risco de colisões”, diz.

Ainda segundo Laganá, outras funções cruciais do projeto são a frenagem de emergência e a mitigação de choque com pedestres. “Em uma situação na estrada, se o motorista não acionou o ACC, mas um caminhão breca na frente, o sistema passa a fazer a frenagem. Isso demonstra um avanço significativo na autonomia dos veículos, permitindo que eles ajam proativamente em situações de risco. No caso de pedestres, o sistema detecta sua presença e aciona a frenagem automaticamente”, detalha.

Outra tecnologia incluída no projeto foca na manutenção dos veículos na faixa em vias e rodovias. “Às vezes, você está trafegando na estrada por uma faixa. Se você sair dela, o sistema te avisa”, explica Armando Laganá. Essa função pode ser especialmente útil para situações em que o motorista esteja com fadiga, evitando um risco aumentado de distrações.

Dirigibilidade e segurança também estão contempladas no sistema. “A função de estabilidade não deixa as rodas travarem. Se a velocidade está chegando a zero, ele libera a frenagem naquela roda, aumentando a estabilidade do veículo, mesmo em condições adversas”, descreve o professor.

A metodologia do projeto envolve o uso de simulações com o software MATLAB Simulink e, em seguida, o processo de validação por meio do Hardware-in-the-Loop, que simula o sistema e, posteriormente, faz a validação em um veículo real. “Essa abordagem rigorosa garante que as tecnologias sejam testadas em condições que replicam a situação real de direção”, explica Laganá.

Hilton Spiler, responsável regional da Bosch América Latina

Investigação avançada de sinistros

Empresa parceira no SegurAuto, a Bosch – que há 70 anos atua no Brasil com produção de peças automotivas e dispositivos de segurança, como a patente dos freios ABS – contribui para o projeto com a investigação de acidentes de trânsito e a aplicação de tecnologias avançadas de  Sistema Avançados de Assistência ao Condutor (ADAS). Hilton Spiler, responsável regional por sistemas de ADAS, computação veicular e engenharia de sistemas ativos de frenagem da Bosch América Latina, explica que a segurança veicular é um tema cada vez mais relevante no panorama brasileiro. “Participamos dos estudos de várias maneiras. Primeiramente, capacitamos nosso pessoal para contribuir com diversas entidades na construção da segurança veicular no Brasil. Para explicar, o ADAS é um sistema que atua como um ‘anjo da guarda’, ajudando motoristas a evitar acidentes com intervenções automáticas, como o freio de emergência”, diz Spiler.

Ele destaca que a introdução de novas regulamentações legais exigirá que todos os veículos novos, a partir de 2025, tenham um sistema de sinalização traseira, com aumento da prevenção de acidentes com pedestres e ciclistas. “Estamos adaptando essa tecnologia à realidade brasileira, considerando as particularidades de sinalização do país, mas a lentidão na renovação da frota é um grande obstáculo. A expectativa é que, até 2030, tenhamos a instalação total dessas tecnologias, o que aumentará a segurança dos veículos no país”, afirma o especialista.

Hilton Spiler é otimista sobre como a conectividade poderá contribuir para o aumento da segurança no trânsito. “A expectativa para 2029 é de uma cobertura 5G em todo o Brasil, o que ampliará as possibilidades de comunicação entre veículos e entre meios de transporte e as cidades. A conectividade facilitará a segurança veicular, permitindo uma comunicação mais eficiente e automatizada, reduzindo a dependência de ações manuais e aumentando a segurança nas estradas,” detalha.

Status do projeto

Atualmente, o projeto está avançando em um ritmo promissor. “Estamos tentando concluir o veículo-plataforma para incorporar essas funções. Eu diria que, até julho de 2025, a gente consegue ter essas funcionalidades operando no veículo”, prevê o professor Armando Laganá. Apesar do otimismo, segundo o professor, um desafio é estabelecer uma comunicação eficaz entre os sistemas de motor e de transmissão.

Resultados previstos:

  • Metodologia para desenvolvimento e implementação das funções ADAS e de comunicação veicular utilizando a metodologia X-In-the-Loop;
  • Metodologia para testes das funções desenvolvidas em veículos de pequena escala em ambiente controlado;
  • Metodologia para testes das funções desenvolvidas em veículos leves e comerciais;
  • Banco de dados com vídeos e imagens das rodovias monitoradas contendo mecanismo de identificação de objetos, identificação de falsos positivos e negativos, bem como busca seletiva para verificação e validação de funções ADAS que dependam de imagens; 
  • Características e funcionalidades de infraestrutura de comunicação intra-veicular e inter-veicular, bem como resultado de estudo de caso em veículos de pequena escala.

Estratégia de difusão dos conhecimentos adquiridos:

  • Participação em congressos e conferências para divulgação dos resultados;
  • Divulgação por meio de publicação de artigos em revistas internacionais;
  • Elaboração e publicação de teses e dissertações;
  • Elaboração de patentes;
  • Workshops tendo como alvo geral as empresas parceiras.

Estratégia de transferência e incorporação de tecnologia para a indústria automobilística:

  • Elaboração e fornecimento de documentação técnica para as empresas parceiras;
  • Tutoriais e elaboração de arquivos de configuração das plataformas e ferramentas utilizadas;
  • Apresentações periódicas para compartilhamento de dados e divulgação de resultados;
  • Elaboração e compartilhamento de relatórios parciais e final compartilhados com as empresas parceiras.

Como resultado do 1º Ciclo da Linha V,  por meio das ações empregadas pelo Eixo de Segurança Veicular, a coordenadora técnica do Programa Prioritário, Ludmila Silva, destaca a contribuição do projeto para a indústria automobilística brasileira como um todo. “Alcançamos progressos significativos, como a geração de patentes e o desenvolvimento de softwares com aplicações para segurança ativa e passiva”, detalha.

Hilton Spiler, da Bosch, ressalta a importância de projetos que envolvem a união de diferentes setores, como são feitos os estudos do programa Mover. “Trabalhar em conjunto com academia, indústria e entidades reguladoras é fundamental. A capacitação técnica é essencial para que possamos avançar em segurança veicular e trazer o Brasil para um nível semelhante ao de países desenvolvidos,” analisa.

Armando Laganá vai além, apontando a relevância do fomento à formação técnica e acadêmica de profissionais que estão em contato com o estado da arte na engenharia automotiva, elétrica e mecânica. “O projeto SegurAuto não apenas pode melhorar a segurança veicular, mas também redefinir o futuro da mobilidade e da formação de engenheiros automotivos no Brasil”, finaliza o professor.

Sobre a Linha V 

A Linha V – Biocombustíveis, Segurança Veicular e Propulsão Alternativa à Combustão –, do Programa Mover, tem como diretriz a eletrificação do powertrain veicular para a alta eficiência energética, a utilização de biocombustíveis para a geração de energia e a adequação do contexto brasileiro de infraestrutura de abastecimento.   

A partir da aliança entre os principais atores que representam o conhecimento do setor (empresas, entidades representativas e Instituições de Ciência e Tecnologia – ICTs), serão habilitadas as competências necessárias para capacitar a cadeia automotiva.

A Fundep é a coordenadora da Linha V. A coordenação técnica é da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Centro Universitário da Fundação Educacional Inaciana (FEI) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).    

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