O projeto Demonstradores 2.0, desenvolvido no âmbito da Linha IV – Ferramentarias Brasileiras Mais Competitivas, do programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação), coordenado pela Fundação de Apoio à UFMG (Fundep), teve seu contrato assinado e publicado no Diário Oficial da União nesta quinta-feira (19/12/2024). A segunda fase da iniciativa, liderada pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), irá avaliar os impactos dos demonstradores criados na primeira etapa e aprimorar modelagens e protótipos que possam contribuir com a especialização das ferramentarias brasileiras e, por consequência, com a maior competitividade do mercado interno automotivo, agregando custos mais baixos e alta produtividade.
O aporte total no projeto será de R$ 33,4 milhões, com execução de 36 meses.
Os resultados da primeira fase, que abrigou os projetos DEMESTAA e MISCAE, com coordenação geral do ITA, e do DECOLAB, coordenado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), com a participação de 20 empresas, apontaram oportunidades de melhorias e desafios tecnológicos e organizacionais. O mercado das ferramentarias brasileiras é complexo e a primeira fase evidenciou o tamanho do desafio: gargalos para a implantação dos resultados abrangem dimensões como financeiro, tecnologia e gestão.
Para entender o trabalho a ser desenvolvido na segunda fase e os resultados esperados, é preciso detalhar e analisar o que foi produzido:
- Diagnóstico de competitividade: os projetos Demonstrador de Estampagem de Superfícies Classe A (DEMESTAA), Demonstrador de Estampagem de Painel Estrutural – Coluna B (DECOLAB) e Modelagem e Identificação de Defeitos em Superfícies Classe A e Estruturas Estampadas (MISCAE) foram cruciais para a identificação dos gargalos descrito acima.
- Participação conjunta: mais de 20 empresas, incluindo ferramentarias, montadoras e fornecedores, trabalharam em conjunto com três Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) para realizar um mapeamento detalhado dos processos, resultando em soluções voltadas para a melhoria da qualidade e produtividade.
- Ecossistema de integração setorial: os projetos estimularam a colaboração entre as partes envolvidas, permitindo discussões significativas sobre inovação e alternativas para os desafios enfrentados pelo setor. A abordagem colaborativa demostrou que problemas enfrentados por uma empresa são comuns a outras.
- Indicadores de performance: foram criados indicadores para medir o desempenho e apontar áreas que necessitam de melhorias, visando à competitividade no mercado global.
- Construção de ferramentais: o desenvolvimento dos demonstradores gerou experiências práticas para a construção de ferramentas, incluindo aperfeiçoamentos na qualidade e redução de custos e tempo de produção.
- Otimização de processos: focados na redução de desperdícios e aumento da eficiência, os projetos introduziram novas tecnologias e métodos, como o uso de inteligência artificial para otimização de usinagem e de processos de produção.
- Expectativas futuras: o projeto 2.0 tem como meta implementar as soluções desenvolvidas para resolver os gargalos identificados, com subprojetos específicos para cada área necessária.
- Fortalecimento do setor: a união entre as empresas e as ICTs é vista como um passo importante para a recuperação do setor, gerando um maior número de ferramentarias qualificadas preparadas para atender à demanda do mercado interno e reduzir a dependência de importações.
Na segunda fase, o projeto está dividido em 11 subprojetos:
- Padronização de componentes e processos: padronização de parte insumos na fabricação e montagem de ferramentais, de modo a permitir compras em maior quantidade e consequente redução de custo.
- Fundição: melhoria da qualidade e precisão do processo de fundição pela aplicação de ferramentas atuais, como simulação do processo e near net shape, visando reduzir não conformidade e redução do tempo de usinagem.
- Usinagem: não apenas incorporar novidades em termos de ferramentas, máquinas, software e demais insumos da usinagem para o setor, como fomentar a criação de rotinas de otimização de processos.
- Montagem: aplicação de rotinas diferenciadas, aplicação de conceitos Lean nos processos de montagens e avaliação de leiautes adequados, visando a redução de tempos e falhas.
- Monitoramento: soluções de monitoramento para evitar desperdícios de tempo e recursos, quantificando-se os potenciais ganhos na aplicação real dos demonstradores.
- Fluxo de caixa: identificar oportunidades e articulação com parceiros para promover serviços financeiros dedicados ao setor, de modo a não prejudicar o fluxo de desembolso dos custos.
- Capacitação de gestores: capacitação de gestores e empresários para lidar com os novos desafios, de modo a direcionar adequadamente seus esforços e decisões internas.
- Demonstrador de Coluna B – DECOLAB 2.0: avaliar e quantificar os ganhos após as implantações tecnológicas e operacionais realizadas.
- Gestão e integração do consórcio: uso de consultores para identificar as oportunidades de aplicação das tecnologias, dos métodos e das demais oportunidades que o programa Mover pode oferecer.
- Demonstrador de Superfície Classe A – DEMESTAA 2.0: avaliar e quantificar quais os ganhos possíveis após todas as implementações realizadas.
Nesta nova etapa, a Fundação Getulio Vargas (FGV) e a Universidade Federal do ABC são as ICTs parceiras. A definição das empresas que participarão será feita em breve. A expectativa é que o projeto seja integrado à plataforma Conecta Mais para ampliar a articulação com o setor ferramental.
A importância dos demonstradores

Um demonstrador é um protótipo ou modelo produzido com o objetivo de evidenciar e avaliar a capacidade de processos, tecnologias ou produtos dentro de um determinado setor. No contexto do projeto de Demonstradores, especialmente no que se refere ao setor de ferramentarias, o demonstrador se traduz em um experimento prático que permite identificar problemas, testar soluções e otimizar processos de fabricação.
Ana Paola Villalva Braga, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e coordenadora técnica da Linha IV, destacou a importância do Demonstradores 2.0 para abordar as dificuldades existentes na produção de ferramentas no Brasil. “O Programa Prioritário tem como missão aumentar a competitividade do setor. Na primeira fase, recebemos relatos de baixa qualidade, altos custos e longos prazos de entrega das ferramentarias brasileiras, fatores que prejudicam a competitividade”, analisou.
Ela ressaltou que o uso de demonstradores dentro do projeto permite uma avaliação científica e isenta. “Os demonstradores funcionam como uma forma controlada de identificar os gargalos que impactam a produção. Durante o primeiro ciclo, observamos a falta de padronização e os problemas no fluxo de caixa, além de defeitos na matéria-prima”, explicou a coordenadora.
Ana Paola também abordou o potencial dos demonstradores na resolução de problemas históricos do setor. “A ideia é propor melhorias baseadas nas lições aprendidas. Queremos padronizar algumas peças e implementar uma compra coletiva, na qual várias empresas juntam forças para adquirir ferramentas em vez de depender de um único fornecedor”, detalhou.
Utilizando uma metáfora sobre a especialização, Ana Paola disse que “é como passar de um decatleta, que precisa fazer tudo sozinho, para um time com especialistas em cada disciplina. Assim, podemos otimizar o processo e garantir melhorias nos prazos e qualidade. Se conseguirmos demonstrar a eficácia das soluções propostas, isso abrirá portas para aplicá-las em outras empresas, tornando-se um laboratório de soluções para o setor”.
Novo modelo de operação para as ferramentarias
Anderson Borille, pesquisador do ITA e coordenador-geral do projeto Demonstradores 2.0, reforçou os desafios identificados. “Seja do ponto de vista de gestão, de competitividade ou de tecnologia, os indicadores são ruins. Temos problemas de fluxo de caixa, dificuldade de atualizar equipamentos e, por consequência, a competitividade diminui”, reconheceu.
Diante desses obstáculos, ele defendeu que seja feita uma proposta de um novo modelo de operação. “Precisamos que as ferramentarias comecem a se especializar em etapas específicas do processo, o que permitirá uma gestão mais eficiente e um desenvolvimento tecnológico mais focado”.
Borille destacou a colaboração entre empresas e universidades como vital para o sucesso do projeto. “Com a participação de mais de 20 empresas, conseguimos uma visão ampla do status do setor. O demonstrador também é uma oportunidade de reduzir a dependência de importações, que hoje representam 80 a 85% da indústria de estampagem”, disse.
O coordenador-geral deixou claro que a união das empresas é fundamental ao dizer que “estamos criando uma estrutura que permitirá a todos melhorar sua competitividade e, como resultado, fortalecer toda a indústria nacional”.
Excelência nacional e concorrência internacional
A importância de um diagnóstico aprofundado e possível de ser medido, realizado na primeira fase, também foi destacada como fundamental pela Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA). Para o diretor de manufatura e materiais da entidade, Carlos Sakuramoto, “mapeamos as fraquezas e, agora, com o demonstrador 2.0, vamos resolver os problemas e implementar melhorias”.
Sakuramoto pontuou que a solução dos desafios não é simples. “Temos mais de 30 projetos dentro do Demonstradores 2.0 que visam sanar as deficiências. A partir do momento que os resultados dessas ações começarem a aparecer, esperamos alcançar uma produção mais eficiente e de melhor qualidade. Estamos projetando diversos subprojetos, como os de otimização de processos e de usinagem, com o objetivo de reduzir o tempo de desenvolvimento do ferramental. O importante é ter uma quantidade suficiente de ferramentas no Brasil para atender à demanda das montadoras”, explicou.
Entre os resultados esperados na segunda fase do Demonstradores 2.0, Sakuramoto inclui um desenvolvimento do mercado brasileiro que faça frente aos principais concorrentes internacionais. “O verdadeiro concorrente das ferramentarias não são as que estão na cidade ao lado, mas as que estão do outro lado do oceano, que oferecem custos e prazos de desenvolvimento muito menores. Precisamos nos unir para atender a nossa demanda coletiva”, concluiu.
Sobre a Linha IV – Ferramentarias Brasileiras Mais Competitivas
A Linha IV – Ferramentarias Brasileiras Mais Competitivas tem como propósito superar os desafios enfrentados por ferramentarias com baixa produtividade e defasagem tecnológica. O foco é capacitar a cadeia de ferramentais de produtos automotivos, visando alcançar competitividade em nível global. Alinhada ao compromisso de neoindustrialização, centrada na inovação, a frente de atuação concentra suas iniciativas na otimização de prazo, custo e qualidade ao longo das diferentes fases do ciclo de vida de produção de ferramentais.
Dessa forma, busca-se capacitar as ferramentarias brasileiras não apenas para atender à demanda nacional na fabricação de veículos, mas também para conquistar uma posição destacada no mercado global. Liderada pela Fundep, a Linha IV tem coordenação técnica do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
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