Estudo inédito do Mover mapeia emissões da indústria automotiva ‘do berço ao portão’ e destaca potencial competitivo do Brasil

Categoria: Linha V, Mover

Um estudo inédito conduzido no âmbito do programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação) traz novas evidências sobre o papel estratégico do Brasil na transição para uma economia de baixo carbono no setor automotivo. O projeto “Do berço ao portão: Pegada de carbono da produção de veículos leves fabricados no Brasil” quantifica, de forma detalhada, as emissões de gases de efeito estufa (GEE) associadas à etapa de produção de veículos leves no país, contribuindo para o avanço de políticas públicas e produtos mais sustentáveis na indústria brasileira.

A iniciativa integra Linha V – Biocombustíveis, Segurança e Propulsão Veicular, programa prioritário do Mover, coordenada pela Fundação de Apoio da UFMG (Fundep). O estudo, considerado estratégico dentro do programa, foi conduzido pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces), em parceria com a Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (FEM/Unicamp), reunindo uma ampla rede de especialistas e instituições.

O ciclo “do berço ao portão” (cradle-to-gate) é uma avaliação parcial do impacto ambiental e de carbono de um produto, abrangendo desde a extração de matérias-primas (“berço”) até o momento em que sai da fábrica (“portão”). Ele exclui transporte, uso e descarte final.

Um dos principais diferenciais da pesquisa está no uso de dados primários e na adaptação metodológica ao contexto brasileiro, conhecido como “tropicalização” dos dados. Até então, análises sobre emissões na produção automotiva no Brasil dependiam majoritariamente de bases internacionais, que nem sempre refletem as especificidades da matriz energética e das condições industriais nacionais.

Para entender o impacto da fabricação nacional, a equipe do projeto analisou 12 veículos representativos do mercado brasileiro (hatch, sedan e SUV), abrangendo modelos a combustão (ICEV), híbridos (HEV), híbridos plug-in (PHEV) e 100% elétricos (BEV). A pesquisa teve 36 meses de duração e mobilizou uma equipe de 26 pesquisadores, contando com a colaboração de 18 empresas parceiras e 11 associações setoriais. O aporte total da Fundep foi de R$ 6,5 milhões, por meio do programa Mover.

“O estudo marca um avanço inédito no Brasil ao reunir dados primários e inventários de ciclo de vida ajustados à realidade nacional, preenchendo uma lacuna importante sobre a produção automotiva no país. Ao tropicalizar fatores de emissão tanto da montagem dos veículos quanto dos principais materiais, o estudo oferece uma visão mais fiel da pegada de carbono dos veículos fabricados no Brasil, levando em conta a matriz elétrica majoritariamente renovável e as condições industriais brasileiras. Com isso, o projeto evita distorções comuns em análises baseadas apenas em bases internacionais, como GREET e ecoinvent, que nem sempre refletem as especificidades do contexto nacional”, afirma pesquisadora e gestora de projetos do FGVces, Juliana Picoli.

Os resultados apresentados, durante evento na última quarta-feira (29/04), na FGV, em São Paulo, evidenciam que a maior parte das emissões ocorre antes mesmo de o veículo chegar às ruas. Mais de 90% da pegada de carbono está concentrada nas etapas iniciais da cadeia produtiva, especialmente na extração, produção e processamento de matérias-primas como aço, alumínio e polímeros.

No caso dos veículos elétricos, a fabricação das baterias se destaca como o principal fator de impacto ambiental, respondendo por cerca de 46% a 47% das emissões totais associadas à produção. Esse percentual elevado está relacionado à intensidade energética dos processos industriais e à complexidade da cadeia de suprimentos envolvida na produção de células de bateria, que inclui a extração e o processamento de materiais críticos.

Apesar desse cenário, o estudo aponta que o Brasil possui vantagens competitivas relevantes, especialmente em função de sua matriz elétrica, composta por quase 90% de fontes renováveis. Essa característica pode reduzir significativamente as emissões associadas à produção industrial, embora os pesquisadores ressaltem que essa vantagem depende de condições específicas de produção e integração da cadeia nacional.

Para avaliar esse potencial, foram realizadas simulações com diferentes cenários produtivos. A comparação entre uma cadeia de suprimentos totalmente nacional e outra totalmente importada revelou que veículos a combustão fabricados com insumos nacionais podem apresentar emissões até 32% menores. Esse ganho é atribuído principalmente ao uso de energia de menor intensidade de carbono na produção de materiais e na fabricação dos veículos.

Além da nacionalização da cadeia, o estudo também analisou variáveis como perdas de materiais ao longo da produção e o aumento do conteúdo reciclado nos componentes estruturais dos veículos. Os resultados indicam que essas estratégias têm alto potencial de mitigação das emissões de GEE, reforçando a importância da eficiência material e da economia circular na indústria automotiva.

Caminhos para a descarbonização

A partir das análises realizadas, o estudo identifica um conjunto de estratégias prioritárias para reduzir a pegada de carbono da produção automotiva no Brasil. Entre elas, destacam-se a escolha de materiais com menor intensidade de carbono, a adoção de rotas tecnológicas mais eficientes, a valorização de insumos nacionais e o aumento do uso de materiais reciclados ao longo da cadeia produtiva.

Ao disponibilizar inventários e fatores de emissão representativos da realidade brasileira, a pesquisa oferece subsídios técnicos importantes para a formulação de políticas públicas, regulamentações e decisões empresariais, fortalecendo a competitividade do setor em um cenário global de crescente exigência ambiental.

Outro aspecto relevante abordado pelo estudo é o debate sobre a eletrificação da frota. Embora veículos elétricos não emitam gases de efeito estufa durante o uso, sua produção apresenta maior intensidade de carbono, especialmente devido às baterias. No entanto, os pesquisadores identificaram a existência de um ponto de equilíbrio (o chamado break-even) a partir do qual o veículo elétrico compensa essa diferença ao longo de sua vida útil, reduzindo as emissões totais em comparação com outras tecnologias.

O estudo também traz uma perspectiva importante sobre o papel dos biocombustíveis. Um veículo flex produzido no Brasil e abastecido exclusivamente com etanol pode, em determinadas condições, apresentar uma pegada de carbono total inferior à de veículos eletrificados importados. Esse resultado depende, entre outros fatores, da forma de geração da eletricidade utilizada na recarga dos veículos elétricos e das práticas de produção do etanol.

“O projeto demonstra, de forma consistente, um grande êxito alcançado a partir da articulação entre academia, setor produtivo e governo. Trata-se de uma iniciativa que responde a uma demanda estratégica do setor automotivo, ao oferecer dados robustos e adaptados à realidade brasileira, fundamentais para a tomada de decisão e para o avanço da descarbonização da indústria. Além disso, a iniciativa possibilita a ampliação de políticas públicas para a cadeia automotiva, contribuindo para posicionar o Brasil como uma referência sustentável em busca de uma mobilidade de baixo carbono”, afirma Ana Eliza Braga, gerente de programas da Fundep.

Relevância e impactos

Gustavo Bicalho, coordenador de Projeto de Pegada de Carbono na Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), destaca que a iniciativa surge em um momento de profundas transformações da indústria automotiva e que a mensuração das emissões de CO₂ ao longo da cadeia produtiva, passa a ser um elemento central de competitividade. “No Brasil, embora esse tema já seja amplamente discutido, ainda havia uma lacuna importante relacionada à disponibilidade de dados que refletissem com fidelidade a realidade industrial local. Nesse contexto, o projeto cumpre um papel estruturante ao desenvolver uma base técnica robusta e alinhada às especificidades da cadeia automotiva nacional”.

Para ele, a relevância está justamente na capacidade de oferecer dados representativos, permitindo não apenas identificar onde o país já possui vantagens competitivas (como no uso de uma matriz energética mais limpa), mas também orientar esforços estratégicos em elos da cadeia que ainda apresentam maior intensidade de emissões.

Gustavo Bicalho

Trata-se de um avanço fundamental para uma abordagem mais precisa e eficaz da descarbonização no setor. Há também uma expectativa bastante positiva de que os resultados do projeto contribuam diretamente para o aprimoramento e a implementação de políticas públicas. Iniciativas como o programa Mover, que prevê a mensuração e o reporte da pegada de carbono dos veículos comercializados no país, dependem de bases técnicas consistentes para sua operacionalização. Nesse sentido, o estudo oferece subsídios concretos para dar suporte a esse tipo de regulamentação, fortalecendo a competitividade da indústria brasileira em um cenário global cada vez mais exigente.

Gustavo BicalhoCoordenador de Projeto de Pegada de Carbono da AEA

Metodologia e próximos passos

A metodologia adotada foi a Avaliação de Ciclo de Vida (ACV), que permite mensurar os impactos ambientais ao longo de toda a cadeia produtiva (desde a extração das matérias-primas até a fabricação final dos veículos). Entre os objetivos centrais do estudo estão a quantificação das emissões, a identificação das principais fontes de impacto e a comparação com padrões internacionais de produção automotiva.

Como desdobramento, o projeto prevê o lançamento da ferramenta digital MOVER-SE, um simulador online que permitirá a empresas e formuladores de políticas públicas calcular e comparar a pegada de carbono de veículos leves com base em dados alinhados à realidade brasileira. A expectativa é que a ferramenta amplie o uso prático dos resultados do estudo e fortaleça a tomada de decisões orientadas por evidências no setor.

Publicações

Consulte os relatórios do estudo e acesse evidências técnicas sobre a pegada de carbono da produção automotiva no Brasil.

Sobre o projeto

O projeto “Do berço ao portão” tem como objetivo determinar e avaliar a pegada de carbono de veículos leves do tipo automóvel fabricados no Brasil, em conformidade com os requisitos das normas internacionais de Avaliação do Ciclo de Vida (ISO 14040:2006 e ISO 14044:2006). O propósito é quantificar os impactos relacionados às mudanças climáticas ao longo da etapa de produção dos veículos, abrangendo desde a extração de matérias-primas até a fabricação final. Adicionalmente, busca mapear as principais fontes de emissões de gases de efeito estufa (GEE) e identificar oportunidades de mitigação, bem como realizar benchmarking internacional, de modo a comparar o desempenho da produção nacional com o de outros países.

A iniciativa, selecionada pela Fundep por meio de Chamada Pública da Linha V – Biocombustíveis, Segurança e Propulsão Veicular, do programa Mover,  responde a uma demanda estratégica do setor automotivo e foi estruturada em colaboração com associações e empresas representativas da cadeia produtiva. Nesse contexto, o projeto contribui para o posicionamento da indústria brasileira em padrões globais de sustentabilidade, ao mesmo tempo em que subsidia o aprimoramento da gestão das emissões atmosféricas no país.

Coordenador geral: Mario Monzoni

ICT: Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces)

ICT Associada: Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (FEM/Unicamp)

Aporte: R$ 6,5 milhões

  • Becomex
  • Bosch
  • Gerdau
  • GM
  • Honda
  • Jaguar e Land Rover
  • Lwart
  • Metalpo
  • Nissan
  • Prolind
  • Renault
  • Stellantis
  • Toyota
  • Usiminas
  • Volkswagen
  • Evbras
  • Tupy
  • AEA (Associação Brasileira de Engenharia Automotiva)
  • ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores)
  • SINDIPEÇAS (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores)
  • ABAL (Associação Brasileira do Alumínio)
  • ABTB (Associação Brasileira de Tecnologia da Borracha)
  • ABIPLAST (Associação Brasileira da Indústria do Plástico)
  • REDE ACV (Rede Empresarial Brasileira de Avaliação de Ciclo de Vida)
  • ABIVIDRO (Associação Brasileira das Indústrias de Vidro)
  • ABIT (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção)
  • IABR (Instituto Aço Brasil)
  • IQA (Instituto da Qualidade Automotiva)

Com informações do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces): https://eaesp.fgv.br/centros/centro-estudos-sustentabilidade

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